"Ainda ontem pensei em ir embora. Mas um vento suave bateu nos meus cachos e levou consigo minha coragem e deixou no meu peito o maior amor do mundo, que desconhece os limites da razão e que é teu, por mais que lateje aqui. Sem licença para te amar, mas com a permissão das hipérboles sem as quais os poetas são mortais, para expressar em palavras que nada tem o mínimo sentido sem você.
Todos os dias eu ensaio a despedida e lembro-me dos teus olhos que me devoram por inteira e que por mais que passeiem por aí, sempre voltam. Lembro-me das lágrimas que saíram deles e que já enxuguei querendo um pouquinho da tua dor. Lembro-me dos mesmos olhos que me olham de canto quando estamos deitados para virem se eu continuo velando teu descanso. E eles sempre encontram os meus direcionados ao rosto mais lindo, ao sorriso mais ambíguo e ao único homem que foi capaz de me fazer sentir plena.
E você sempre pergunta o que é, sorri e diz que sabia que eu estaria olhando. E eu sempre respondo que estou admirando como você é tão lindo e tão meu e sorrio de volta.
Cada vez que eu tento inutilmente me convencer de que é melhor te esquecer, eu lembro que outras pessoas já apareceram no caminho e ninguém nos separou. Que apesar das dificuldades que foram e são muitas, não ficamos sem nos falar um dia sequer nesses anos. Que a sua voz sempre me presenteou com um bom dia e diariamente desejou boa noite quando seu corpo não podia estar unido ao meu.
Eu tentei me envolver com coadjuvantes, íntima do engano, conhecendo-o e tendo certeza, criando uma história e vivendo com o máximo de verdade inventada, o personagem para ver se esse amor diminuía. E cada ator-par só serviu para me mostrar quem era que realmente me fazia feliz.
E todas as vezes que eu viro as costas acreditando que vou ser capaz de dar o primeiro passo, você me ama e me desarma. E ninguém suspeita quanta cumplicidade e o tamanho do tudo que vivemos e sentimos.
Eu estou aqui deitada completamente burra, procurando estratégias de combate para guerrear sozinha. Eu decidi que isso ia acabar e lembrei-me daquela madrugada depois que apaguei as luzes e deitei envolta em teus braços, com a cabeça recostada em teu peito, ouvindo teu coração que ainda batia acelerado e que do nada, você rompeu o silêncio e disse: “Ei, eu te amo, viu?!”
Aquela bala disparada numa noite sem data especial ainda espalha pólvoras no meu interior e me faz vacilar na segurança que pensei ter conquistado após horas decidindo o fim.
O pior é saber que um dia você vai embora sem nunca ter precisado ensaiar para isso.
E eu vou descer do palco, passar pelas cortinas já fechadas e estrear o que tua coragem possibilitou. Eu vou continuar vivendo... E você continuará sendo o meu melhor amor. Até o dia em que eu enjoar da música e trocar a faixa."
(Brasileiro, A.)





